Rivotril: por que o medicamento é o segundo mais vendido no país?


Alguma coisa estranha deve estar acontecendo quando um remédio contra a ansiedade – tarja preta, vendido apenas com retenção de receita – se torna o segundo medicamento mais consumido no Brasil. Esse remédio é o velho ivotril, que tem 35 anos de mercado, mas nos últimos cinco escalou rapidamente o ranking dos mais vendidos até chegar ao segundo lugar. Em 2008, os brasileiros compraram nas farmácias 14 milhões de caixinhas do ansiolítico (o campeão de vendas é o anticoncepcional Microvlar, com 20 milhões de unidades). O ivotril bate remédios de uso corriqueiro, segundo o IMS Health, instituto que audita a indústria farmacêutica. Vende mais que a pomada contra assaduras Hipoglós, o analgésico Tylenol e outros produtos que os consumidores colocam na cestinha sem saber se algum dia vão usar.

O sucesso espetacular do ivotril no Brasil não ocorre com outros medicamentos da mesma categoria. A classe dos tranquilizantes é a sétima mais vendida no país – vende menos que anticoncepcionais, analgésicos, antirreumáticos e outros tipos de remédio. A clara preferência pelo ivotril é um fenômeno brasileiro, que não se repete em outros países.

A escalada desse ansiolítico na lista dos mais vendidos sugere que a população em sofrimento psíquico pode ser maior do que se imagina. Transtornos de ansiedade e depressão são comuns nas grandes cidades, castigadas pela violência, pelo trânsito e pelo desemprego. Mas a pesquisa São Paulo Megacity, uma parceria do Hospital das Clínicas de São Paulo com a Organização Mundial da Saúde, revela que cerca de 40% dos moradores da região metropolitana sofre de algum tipo de transtorno psiquiátrico. É um porcentual que os próprios psiquiatras consideram “assustador” – e que depõe frontalmente contra a imagem de “nação feliz” que os estrangeiros e nós mesmos, brasileiros, gostamos de cultuar.

O segundo problema que leva à indicação excessiva do ivotril é a precariedade do atendimento de saúde brasileiro, sobretudo de saúde mental. Há falta de psiquiatras no país. Consequentemente, as pessoas não recebem diagnóstico correto e não têm tratamento adequado de seus problemas. Quando o paciente chega ao consultório com enxaqueca, gastrite ou qualquer outra queixa que possa ter alguma relação com ansiedade, frequentemente ganha uma receita de ivotril.

“Os médicos fazem isso porque o remédio é barato (a caixinha mais cara custa $ 13), antigo e seguro”, diz Luiz Alberto Hetem, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria. “Mas ele pode mascarar quadros mais graves.” O ansiolítico acalma e atenua a ansiedade, mas os problemas subjacentes não são diagnosticados. “Grande parte das pessoas nem sequer sofre de ansiedade. A depressão é muito comum”, afirma a psiquiatra Mônica Magadouro. “Mas o atendimento é tão precário que nem se nota a diferença.”

O terceiro fator que contribui para a venda de ivotril é o que o psicanalista Plínio Montagna chama de “glamorização do ato de medicar-se”. No passado havia preconceito contra os remédios psiquiátricos. ecentemente, houve uma guinada cultural e eles passaram a ser vistos como resposta a todos os problemas da existência. Os médicos (sobretudo os que não são psiquiatras) receitam remédios psiquiátricos com total desenvoltura. Da parte dos pacientes, também existe a expectativa de que isso aconteça.Todos têm pressa.

“Emoções normais e importantes para a mente, como tristeza ou ansiedade em situação de perigo, são eliminadas porque incomodam”, diz Montagna, que é presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Questões existenciais são tratadas como sintomas médico-psiquiátricos, com a colaboração de “uma avassaladora quantidade de dólares” gastos em publicidade pela indústria farmacêutica.
“É frequente eu receber para tratamento pacientes com dosagens excessivas de medicação ou coquetéis de diversas substâncias, sem que os aspectos psicológicos tenham sido levados em consideração”, afirma o psicanalista, que também é formado em psiquiatria.

Por trás da precariedade do sistema de saúde e do modismo da medicação, existe a crescente incapacidade das pessoas – e dos médicos – em conviver com um dos sentimentos mais enraizados da psique humana, a ansiedade. Ela está lá desde os primórdios do homem, associada a temores e ameaças indefiníveis. Embora desagradável, é um dos motores da existência. Faz parte da nossa constituição evolutiva. “Ela é um estado de alerta, um estímulo para produzir. O contrário da ansiedade é a apatia”, diz o psicanalista Eduardo Boralli ocha. Totalmente diferente dessa ansiedade benigna é a combinação explosiva de urgência, competição e sentimento de exclusão que caracteriza o nosso tempo.

“As pessoas sentem que em algum lugar está havendo uma festa para a qual elas não foram convidadas e têm de correr atrás”, diz Boralli. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, dizia que a ansiedade era o sintoma de algo que não estava bem resolvido interiormente. Ele diferenciava entre a ansiedade produzida por uma situação externa real e aquela imaginada ou brutalmente amplificada por nossos medos interiores. A primeira não deveria ser medicada, mas ela tornou-se tão presente, tão avassaladora, que é isso que tem sido feito, em larga escala.

Um exemplo está na coleção de propagandas de ansiolíticos acumulada pelo professor Elisaldo Carlini, coordenador do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Universidade Federal de São Paulo. São folhetos promocionais que os laboratórios deixam nos consultórios médicos. Um deles mostra uma mulher com um largo sorriso depois de tomar um remédio que corrigiu a ansiedade gerada por três bilhetes recebidos ao mesmo tempo: um do marido, avisando que chegará tarde para o jantar; outro do filho, dizendo que vai trazer o time de basquete para o lanche; e o terceiro da empregada, avisando que faltou ao trabalho porque foi a um posto de saúde. “Viver dá ansiedade, mas criou-se a cultura de que problemas cotidianos devem ser enfrentados com remédios”, diz Carlini. “As mulheres, principalmente, aprendem que precisam ser magrinhas e calminhas.”

Quando indicado segundo os melhores critérios, o ivotril pode ser bastante útil no tratamento da ansiedade generalizada. O paciente vive angustiado, preocupado, nervoso. Dorme mal, não se concentra e se irrita por qualquer coisa. Sozinho, no entanto, o remédio não resolve o problema. O tratamento depende também do uso de outros recursos, como antidepressivos, psicoterapia e atividade física. O mesmo vale para o tratamento de outros transtornos, como síndrome do pânico, fobias e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Enquanto os antidepressivos demoram cerca de duas semanas para começar a agir, o ivotril age rápido, assim como outros ansiolíticos (Lexotan, Valium, Frontal etc.). A função desses remédios é ser uma ponte temporária até o início da ação dos antidepressivos. Ou um apoio. A síndrome do pânico, por exemplo, é tratada com antidepressivos. Quando o paciente enfrenta situações que podem provocar recaídas, é comum que o médico recomende que tenha o ivotril sempre à mão.

Esses remédios, no entanto, não devem ser usados por muito tempo e sem rigoroso acompanhamento médico. Eles podem causar dependência. Há pessoas que desenvolvem dependência em cinco anos. Outras se viciam em menos de 30 dias.

Podem ocorrer crises de abstinência com a interrupção da droga. Os sintomas mais comuns são insônia, irritabilidade excessiva e tremores. Não há dose segura contra o vício. “ivotril não deve ser remédio de uso contínuo. Deve ser reservado para as crises agudas e usado por no máximo seis semanas”, diz o psiquiatra Joel ennó Jr., coordenador do Projeto de Saúde Mental da Mulher do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Na prática, muitos pacientes recebem a receita de ivotril e passam meses sem ser vistos por um médico. Quando voltam a consultar um profissional de qualquer especialidade, dizem que o anterior receitou o remédio e se sentiram bem. Acabam saindo do consultório com uma nova receita.

Por trás do crescimento das vendas do ivotril há uma história de marketing que merece ser contada. Até 1999, o remédio era promovido entre os médicos apenas como um anticonvulsivante. Era um mercado restrito. Nos últimos anos, surgiram estudos que comprovaram que ele funcionava contra a ansiedade. O fabricante passou a divulgar essa aplicação entre psiquiatras, cardiologistas, neurologistas, geriatras etc. O ivotril é 600% mais barato que o seu principal concorrente, o Frontal, da Pfizer. Outra característica ajuda a explicar por que ele vende tanto. É o único de sua categoria disponível também na apresentação sublingual – gotas que agem rápido se colocadas embaixo da língua.

Os riscos da tranquilidade em comprimidos

Os efeitos dos ansiolíticos mais vendidos, conhecidos como benzodiazepínicos:

O QUE ELES FAZEM
Inibem algumas funções do sistema nervoso, causando relaxamento muscular, sonolência e diminuição da ansiedade

PAA QUE SEVEM
Estimulam a ação de um ácido (conhecido como gaba) no cérebro. Ele inibe a ativação de áreas relacionadas ao medo e à ansiedade

QUANDO DEVEM SE USADOS
Com outros remédios, são indicados para tratar vários transtornos mentais. Não são recomendados para aplacar tensões do cotidiano

QUAIS SÃO OS EFEITOS COLATEAIS
Sonolência excessiva e diminuição da coordenação motora. Podem ocorrer dificuldades no processo da aprendizagem e da memorização

CAUSAM DEPENDÊNCIA?
Sim. Algumas pessoas desenvolvem dependência em cinco anos. Outras se viciam em menos de 30 dias. Podem ocorrer crises de abstinência

COMO EVITA A DEPENDÊNCIA
Não há dose segura contra o vício. Quanto menor a dose, menor a probabilidade de o paciente desenvolver dependência.

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7 Comments on “Rivotril: por que o medicamento é o segundo mais vendido no país?”

  • maxwell wrote on 25 janeiro, 2010, 21:12

    gostaria de saber se o rivotril emagrece ou engorda?

  • xxxxxxxxxxxxxxxxxx wrote on 28 março, 2010, 17:04

    MAXWEEL sou paciente psiquiatrico ha 5 anos. não sei se o rivotril engorda ou emagreçe! Mas concerteza o FLUOXETINA emagreçe!!!! minha psiquiatra me dise!!!
    abraço

  • simone wrote on 8 abril, 2010, 2:08

    gostaria de saber se frotal pode me prejudicar na hora da minha prova de volante, pois foi meu médico que me receitou estou com muita ansiedade e não consigo passar na prova.

  • eide wrote on 12 abril, 2010, 21:23

    nossa se esses reedios tarja preta fazem tanto mal assim….porque os medicos nao avisam …sei q tem pessoas q precisam deles…so gostaria de saber se existe alguma coisa pra reverter essa situaçao……pois depois q li esses comemtarios estou morrendo de medo…..

  • iraci wrote on 22 abril, 2010, 0:44

    sou usuaria do rivotril há mais de dez anos e fico louca se ver que estou sem ele e não consigo mais ficar sem estou viciada nele já tomo 30 gotas por dia pois com menos me da caimbras tremores dores de cabeça e nas juntas sou dependente desta droga e não sei o que fazer tenho sindrome do pânico e tomo antidepressivos junto e ainda tenho que levantar cedo para trabalhar pois tenho uma filha p criar.passo muito sono no serviço

  • cacá wrote on 8 maio, 2010, 22:54

    Passei 5 anos sem ter crises de pânico porque tomei rivoril, sertalina e fiz terapia. Na realidade, o que me fez ñ ter essas crises por tanto tempo foi a terapia, pois com ela, aprendí a ter um controle qdo sentia que o pânico estava por vir. Hoje, voltei a ter crises de pânico e a tomar os remédios. Mas sei que sem o tratamento terapêutico, eu vou ficar dependente dessas drogas. Porém, como fazer terapia, se as consultas são tão caras? Pelos planos de saúde, as consultas são limitadas. Alguns nem cobrem esse tipo de tratamento. Já que o Brasil tem uma grande população sofrendo desse mal, deveriam oferecer mais tratamentos gratúitos, porque nem todo mundo pode pagar para se tratar . E assim, ficam presos aos remédios que tem efeito momentâneo mas que futuramente, só irão trazer mais problemas. Terems brasileiros mais "loucos' do que os que temos agora!…

  • Aline wrote on 7 julho, 2010, 12:48

    olá Iraci eu estava começando a me viciar com Rivotril num prazo de 30 dias e parei de tomar,os sintomas apareceram,mas como tomando eu tambem não ficava bem devido a sonolencia pedi a Deus que me ajudasse e me tirasse a ansiedade,medo e tudo que fizesse vontade de causar vontade de tomar este remedio.
    Hoje estou bem…não sei se você acredita em Deus mas eu acredito….
    Ouça esta radio http://www.padrereginaldomanzotti.org.br/index.ph... e quando tiver uma resposta espero que me fale pode me mandar um email se quiser…enilaborges@hotmail.com.
    Desejo melhoras e tudo de bom.

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